Jornalismo esportivo vs. 'forofismo'


Existe um termo na Espanha, "forofo", que diz respeito ao jornalismo esportivo demagogo, aquele que é feito com o único intuito de incitar ou satisfazer as paixões dos torcedores. Não critica a equipe que joga mal e dificilmente passa informações de maneira profissional. É a capa de jornal que exalta o "craque" que marcou três gols no mesmo jogo - e nunca mais jogou nada - ou estampa um boato de contratação de futuro ídolo que promete solucionar todos os problemas do time instantaneamente. Há muito desse tipo de jornalismo esportivo na Espanha, profundamente marcado pela dualidade Real Madrid-Barcelona. Mas também há bastante aqui no Brasil. E esta semana tivemos aqui um exemplo encarnado do jornalismo esportivo "forofo".

Num quadro do Globo Esporte, noticiário entretenimento-esportivo da maior emissora de televisão do país, o ex-jogador e comentarista Casagrande quis exaltar o seu ex-time e se empolgou. Perguntado por um torcedor (prestem atenção: por um torcedor) se o Corinthians poderia ganhar do Real Madrid, Casagrande respondeu que sim, acrescentando que TALVEZ o time espanhol, devido ao seu elenco, seja favorito, mas deixou claro que o hipotético enfrentamento seria nivelado, de igual para igual.

"O Corinthians pode jogar com qualquer time no mundo hoje. Está em primeiro lugar no campeonato mais difícil, sem perder, invicto. Qual é o problema? É jogo duro. Talvez o Real Madrid, com os jogadores que tem, seja favorito, mas dá pra jogar, dá pra jogar".

Como uma pessoa que se pretende ser profissional de jornalismo esportivo, Casagrande falou duas barbaridades em menos de 30 segundos no trecho acima copiado. Entendo que o perfil da emissora onde ele trabalha e do programa do qual ele participava seja mais "descontraído" do que um noticiário que preza pela objetividade ou imparcialidade. Entendo ainda que, como detentora dos direitos de transmissão do campeonato mencionado pelo comentarista, e que gera uma das maiores fontes de audiência e, consequentemente, renda para o canal, a emissora tenha como diretriz a seus funcionários exaltar seus produtos. Mas o Campeonato Brasileiro está longe de ser "o mais difícil" do mundo.

É sim o mais irregular, e isso não é mérito algum. Significa que os times são fracos, irregulares, e que ganha facilmente a competição a única equipe que mantiver alguma regularidade ao longo de 38 rodadas. Foi esse o caso do Palmeiras ano passado, do Cruzeiro bicampeão em 2013 e 2014, do São Paulo campeão entre 2006 e 2008 e como vem sendo o do Corinthians este ano, invicto e com 12 pontos de vantagem para o segundo colocado ao fim do primeiro turno. O "nivelamento" do Campeonato Brasileiro não provém do fato de todas as equipes serem tão boas que qualquer uma pode ganhar de qualquer outra a qualquer momento, mas de que um time candidato ao título goleia uma equipe de meio de tabela numa rodada e perde para um candidato a rebaixamento na rodada seguinte, em duas exibições completamente distintas. E que isso acontece frequentemente, com boa parte dos times da competição.

Difícil é um campeonato onde enfrenta-se muitos times bons ou ótimos. Na Inglaterra, por exemplo, há pelo menos seis times excelentes, mesmo que no fim das contas alguns possam fazer um temporada bem abaixo do esperado (futebol não é ciência exata): Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United e Tottenham. Além de pelo menos três ou quatro muito bons e outros três ou quatro que não brigam por título ou vaga na Champions, mas dão muito trabalho e sempre proporcionam ótimas partidas para se assistir. E mesmo assim o Leicester foi campeão há uma temporada, goleando os grandes em suas casas e jogando um futebol de altíssimo nível.

Como dito, dentro das circunstâncias, exaltar o Campeonato Brasileiro é até compreensível, mesmo que eu discorde. No entanto, uma coisa é dizer que o Corinthians é o melhor time do Brasil, com sobras. Outra completamente diferente é dizer que ele pode enfrentar o Real Madrid de igual para igual. Quando um outro Corinthians, extremamente bem armado, enfrentou um Chelsea bem mediano na final do Mundial há cinco anos, colocou-se inteiramente atrás da bola e levou o título numa oportunidade não desperdiçada. Mais uma vez: futebol não é uma ciência exata, e esse é exatamente um dos maiores atrativos do esporte mais popular do mundo. Em outras oportunidades, um São Paulo arrumado bateu um Liverpool medíocre, e um Internacional guerreiro derrotou um Barcelona desinteressado. Um gol é suficiente para conquistar uma vitória e/ou um título. Mas isso não faz dessas partidas niveladas. Se o Corinthians de hoje enfrentasse o Real Madrid que ontem derrotou facilmente o Manchester United, o mais provável é que acontecesse entre eles o mesmo que aconteceu entre Santos e Barcelona em 2011.

Não me levem a mal. Eu adoraria que o futebol brasileiro pudesse concorrer em pé de igualdade com o dos principais centros da Europa, como aconteceu durante boa parte do século passado - sendo, muitas vezes, superior. No entanto, o atual modelo econômico da indústria futebolística fez crescer um enorme abismo técnico entre as ligas periféricas e as de maior poder aquisitivo. Nossos melhores jogadores são comprados ainda jovens por clubes que às vezes nem estão entre os melhores, mas mesmo assim têm orçamentos superiores, e a gestão frequentemente amadora dos clubes brasileiros tampouco ajuda.

O "forofismo" de Casagrande, portanto, evidencia que ou o comentarista está totalmente por fora do que acontece no mundo do futebol - o que vai de encontro ao bom exercício de sua profissão, visto que há apenas um dia o ex-jogador comentou exatamente o jogo mencionado entre Real Madrid e Manchester United - ou que ele está inteirado, mas não entende do assunto. Ou apenas que ele deixou seu profissionalismo e conhecimento de lado para ser "forofo" simplesmente porque "vende", "rende clique", "dá audiência". Infelizmente, o caso de Casagrande não é exceção no jornalismo esportivo atual.

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    Apaixonada por futebol desde 1981.

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