Zidane, técnico madridista


Muito se fala sobre Pep Guardiola, José Mourinho ou Antonio Conte, mas poucos reconhecem os méritos de Zinedine Zidane como técnico. É bem verdade que o treinador do Real Madrid não é inovador como Guardiola ou midiático como Mourinho, mas Zizou vem fazendo, há um ano e meio, um excelente trabalho no time merengue, atual bicampeão europeu e melhor equipe de futebol do mundo no momento.

Para ser técnico do Real Madrid é preciso, além de ser ótimo treinador, ter identificação com o Madridismo e saber gerir egos, qualidades que não necessariamente são exigidas em outros clubes. E em Zidane sobram essas duas características. O ex-meia foi um dos últimos ídolos daquele que é considerado o maior clube do mundo. Foram apenas cinco anos como jogador merengue, com a conquista de somente uma Champions e um Espanhol, além de outros títulos de menor relevância, mas Zidane encarnou o Madridismo como poucos. Adotou a cidade de Madri como sua - continuou morando lá após a aposentadoria como jogador e manteve os filhos nas categorias de base do Real -, seguiu representando o clube em eventos e começou aos poucos a assumir cargos diretivos nos bastidores. Zidane estava sendo preparado - e se preparando - para eventualmente ter o comando da equipe principal, uma vez que fazia já algum tempo desde que o Real Madrid não tinha um técnico identificado com o clube - mais precisamente, desde a saída de Vicente del Bosque em 2003.

Quando da contratação de Rafa Benítez, a diretoria do Real tentou empurrar goela dos torcedores abaixo a "ligação" do treinador com o clube: o espanhol havia jogado e treinado o Real Madrid Castilla, mas nunca se identificara com o Madridismo. Benítez ainda pecou na segunda exigência para ter sucesso no clube merengue: não soube gerir o ego da equipe super-estrelada e fez inimigos entre os jogadores com apenas poucas semanas de trabalho. O mau relacionamento transbordou para o campo, e o espanhol foi demitido após seis meses.

Foi depois da queda de Benítez que Zidane estreou como técnico efetivo de um time de Primeira Divisão, sem muita pressão, já que esperava-se dele apenas minimizar os estragos de seu antecessor até o fim da temporada. Porém Zizou fez mais. Manteve o Real na briga pelo título espanhol até a última rodada e conquistou a Champions em cima do rival Atlético de Madrid. Com esse belo início, o que mais se poderia esperar do novato treinador? É aí que começa efetivamente o excelente trabalho de Zidane no comando do Real Madrid.

Como gestor de equipe, trabalhando desde a pré-temporada pela primeira vez, Zidane promoveu a reaquisição de Morata e a contratação de Asensio, além de dar mais espaço a Lucas Vásquez. Como treinador, conseguiu encontrar a melhor formação entre inúmeras excelentes opções de meio-campo, com Casemiro, Toni Kroos e Modric como titulares. Como gestor de egos, soube minimizar as insatisfações de James Rodríguez, Isco e Morata com a reserva e encontrar espaço para todos dentro das rotações feitas para evitar o desgaste de um time que brigou - e conquistou - dois importantes títulos na temporada.

Entretanto, as qualidades de Zidane como treinador vão além. Tendo sido um dos melhores meias que o futebol já viu, Zidane fez do meio-campo do Real o núcleo do time. Toni Kroos e Modric, que sempre foram polivalentes, mas de características mais defensivas, se tornaram meias, enquanto Bale (ou Isco) e Cristiano Ronaldo passaram a ser oficialmente atacantes, e Benzema deixou de ser centroavante para ajudar na criação de jogadas, atuando, inclusive, pelos lados do campo - o número de gols do francês caiu, mas não é exagero dizer que ele teve em 2016/17 sua melhor temporada na carreira. Com a segurança passada por Casemiro e seus companheiros de meio-campo, os laterais Marcelo e Carvajal tiveram mais liberdade para subir, fortalecendo o ataque, sem desguarnecer a defesa. O Real deixou de ser um time de contra-ataques e passou a ter mais posse de bola, sem, no entanto, diminuir a porcentagem de acerto de passes. Além disso, não foram poucas as vezes em que Bale/Isco e Ronaldo trocaram de lado, assim como Kroos e Modric, ao melhor estilo futebol total, tão caro ao rival Barcelona.

O excelente trabalho tático-técnico de Zidane ficou evidente nos rodízios feitos na reta final da temporada, sem que o Real perdesse em qualidade ou perdesse a sua característica de jogo. E, mais especificamente, na final da Champions contra a Juventus, quando, após um primeiro tempo de nítida superioridade do rival, Zidane mudou totalmente o jogo sem fazer nenhuma alteração no elenco, mas apenas trocando o posicionamento de Isco. O meia passou a atuar mais pela esquerda, infernizando a vida de Alex Sandro e deixando Toni Kross mais solto. Foi pela esquerda, após finalização do alemão, que saiu o gol de desempate do Real, com Casemiro pegando rebote. E pela direita, com Ronaldo trocando de posição com Isco, Carvajal e Modric que veio o terceiro tento, que selou a vitória merengue.

Outro evento que deixou claro o dedo de Zidane na equipe foi a derrota por 3 a 2 para o Barcelona no Santiago Bernabéu, em abril, quando, após James igualar o marcador aos 40 do segundo tempo, o Real seguiu pressionando, permitindo o contra-ataque que selou a vitória blaugrana nos acréscimos. O empate era favorável ao time madrilenho, que permaneceria dois pontos à frente do rival e com um jogo a menos, mas Zidane fez questão de enfatizar na coletiva após o jogo que o time seguiu suas instruções ao tentar a vitória - e acabar sendo derrotado. Esse é o Madridismo que encarna Zidane.

Crédito: realmadrid.com

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