Desfile nota 10 na passarela do futebol


O futebol é realmente mágico. Em nenhum outro esporte um Davi tem tanta possibilidade de massacrar um Golias como o Ajax fez com o Real Madrid terça à noite. E o fez com autoridade, jogando um futebol bonito e ofensivo, como prega a escola desenvolvida por Rinus Michels e Johan Cruyff. Na terça-feira de Carnaval, o baile foi holandês, e a maior festa do mundo aconteceu no Santiago Bernabéu.

O futebol contemporâneo tem limites muito claros entre os clubes. Existem os multimilionários, como Real, Barcelona, Bayern e aqueles bancados por ricaços que jogam Football Manager na vida real; os médios, que sobrevivem a base de gestões responsáveis e vira e mexe protagonizam alguma final memorável ou beliscam algum título; e os menores, que vão desde um time inglês propriedade de algum bilionário que prefere fazer investimentos modestos, até uma equipe local de algum subúrbio podre espanhol que está permanentemente brigando para não cair ou para subir à divisão seguinte. Nesse universo, todos os clubes holandeses fazem parte do terceiro grupo, incluindo os tradicionais Ajax, Feyenoord e PSV.

Há dois anos um Ajax de média de idade de 22,7 anos alcançou uma façanha e tanto ao chegar à final da Liga Europa, deixando clubes bem mais ricos, como Schalke 04 e Olympique Lyon, pelo caminho. Parecia um último suspiro daquele que já foi um dos maiores times do mundo. E, como dita o mercado, aquela jovem e promissora equipe foi rapidamente desmontada. O excelente zagueiro colombiano Sánchez foi para o Tottenham por 40 milhões de euros, e Klaassen foi contratado pelo Everton, onde não vingou. No ano seguinte, Justin Kluivert, filho do craque que brilhou nos anos 90/2000, deixou Amsterdã em direção à Roma aos 19 anos, e vários outros jogadores saíram por valores mais modestos. Até o técnico Peter Bosz foi contratado pelo Borussia Dortmund. Mais recentemente, antes mesmo da presente temporada acabar, Frenkie de Jong, de 21 anos, já assinou com o Barcelona por 75 milhões de euros.

No entanto, o Ajax segue se reinventando. Conhecido por ter uma das melhores canteiras do mundo, o time holandês promoveu, apenas nos últimos dois anos, jogadores decisivos como Dolberg, De Ligt e Mazraoui, além, é claro, de Kluivert e De Jong. Para se manter relevante no cenário europeu, porém, revelar jogadores não é suficiente, e o excelente sistema de olheiros do Ajax foi responsável pela contratação de Tagliafico, David Neres e Ziyech, três jovens jogadores que se destacaram na recente goleada sobre o Real Madrid.

Se no time que foi derrotado pelo Manchester United na final mais importante do Ajax nos últimos 23 anos a inexperiência pesou, na equipe que humilhou o vencedor das últimas três Champions a média de idade subiu um pouco, e a mescla de juventude e experiência mostrou ser a receita certa para eliminar o Real Madrid. Tadic, de 30 anos, regeu a orquestra holandesa no Bernabéu: aos 7 minutos de bola rolando, o sérvio deu a assistência para Ziyech abrir o placar; 11 minutos depois, um drible desconcertante em Casemiro e mais uma assistência, desta vez para David Neres; e a atuação perfeita do atacante não seria completa sem o seu próprio gol, o terceiro do Ajax, com um belo chute colocado da entrada da área. O tento que fechou o caixão merengue também foi fruto da experiência e saiu dos pés do jogador mais velho do elenco, Schone, com uma cobrança de falta perfeita.

O Ajax não avançava à fase final da Liga dos Campeões desde 2006, e agora chega às quartas de final com um feito que nenhum time conseguia há três temporadas: despachar o Real Madrid. Os resultados das próximas eliminatórias e do posterior sorteio podem colocar equipes de peso na rota do time de Amsterdã, mas este Ajax já mostrou que aprendeu direitinho os ensinamentos da grande escola holandesa. Inclusive se não conseguir passar por outros Golias, os Godenzonen desfilaram no Bernabéu um futebol nota 10, que entrou pra história, mesmo que os livros de história não contem.

Créditos: Getty Images e Facebook Johan Cruyff

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    Apaixonada por futebol desde 1981.

    Entusiasta de quase todos os outros esportes.

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