O poder (não utilizado) do futebol


Bibiana Steinhaus é a única árbitra nas principais ligas (masculinas) do mundo

Quem assistiu a Augsburg 2 x 3 Bayern na tarde da última sexta-feira teve o prazer de acompanhar um grande jogo de futebol. Brigando contra as últimas posições na tabela, o Augsburg esteve duas vezes à frente no placar, mas o Bayern, com primorosa atuação de Coman, empatou e virou na segunda etapa. O ponta francês fez dois gols e deu a assistência para o de desempate, marcado por Alaba. Foi uma das melhores atuações recentes do time comandado por Niko Kovac, que agora está a apenas três pontos do líder Borussia Dortmund. No Irã, porém, os fãs de futebol tiveram negada essa possibilidade. Por a partida ser arbitrada por uma mulher, Bibiana Steinhaus, o jogo foi censurado e não foi exibido na TV estatal iraniana, sendo cancelado em cima da hora. Em pleno 2019.

No país islâmico mulheres são proibidas de assistir a jogos de futebol em estádios e até pouco tempo atrás não podiam sequer jogar. Em 2005 foi formada a primeira seleção feminina iraniana de futebol desde que o esporte foi proibido para mulheres em 1979, quando houve a Revolução Islâmica no país. No entanto, sem apoio e sem estrutura, a equipe ainda não conseguiu se classificar para nenhuma edição dos Jogos Olímpicos ou da Copa do Mundo.

Recentemente, no Mundial da Rússia, ficaram famosas imagens de torcedores iranianas nas arquibancadas vibrando por sua seleção. No Irã elas não podem acompanhar não só futebol como qualquer evento esportivo em estádio ou ginásio desde 1981. Já na Arábia Saudita mulheres só foram autorizadas a assistir a uma partida em estádio há cerca de um ano, e mesmo assim acompanhadas de homens, na seção “família” – o resto do estádio, incluindo os melhores assentos, é exclusivo dos homens.

A censura agora extrapolou todos os limites e invadiu a casa dos torcedores. Segundo a imprensa alemã, o motivo é o uniforme da árbitra, que permitia que parte das pernas fossem mostradas.

Bibiana, que nada tem a ver com isso, é uma das melhores árbitras da Alemanha, entre mulheres e homens, e me arrisco a dizer que da Europa e até do mundo. Já tive a oportunidade de vê-la atuando ao vivo e na televisão e não tenho nenhuma memória de algum erro esdrúxulo em alguma partida comandada por ela – que todos sabemos ser o verdadeiro critério para julgar uma arbitragem: um árbitro é bom quando não é ruim. Além disso, ela não tem problema para impor respeito entre os jogadores e não há registro de algum desentendimento significativo em campo.

O principal argumento que limita a participação de árbitras mulheres em partidas de futebol masculino é o de que o físico em desvantagem quando comparado ao masculino não permitiria que uma mulher acompanhasse o jogo e a bola com a mesma velocidade de um homem. Bibiana, porém, mostra que essa justificativa não se aplica a todas as mulheres, e sua presença na Bundesliga abre portas para outras árbitras, apesar de ela continuar sendo a única juíza nas principais ligas do mundo quase um ano e meio depois de seu primeiro jogo na Primeira Divisão.

Esporte mais popular do mundo, o futebol tem um potencial imensurável de transformação social, mas federações e entidades esportivas mundo afora fingem que não veem esse tipo de discriminação – independentemente de fazer parte da cultura de um país, um povo ou uma religião, discriminação continua sendo discriminação. Enquanto a Fifa, numa polêmica eleição publicamente marcada por compra de votos, concedeu a Copa de 2022 ao Qatar, a Federação Italiana recentemente organizou a Supercopa da Itália na Arábia Saudita, em claras manifestações de que o dinheiro vale muito mais que o respeito. Vale lembrar ainda que Irã, Qatar e Arábia Saudita são conhecidos não apenas pela discriminação institucionalizada contra mulheres e LGBTs, como também pelo sistemático desrespeito aos direitos humanos.

É claro que nem mesmo a Fifa pode impor mudanças em leis e culturas, mas não aceitar a candidatura de países que desrespeitam os direitos humanos para sediar a Copa do Mundo, por exemplo, já seria uma manifestação bastante relevante no sentido de mudar essa percepção e estimular o respeito para com mulheres, LGBTs e outros segmentos oprimidos da sociedade. Ou ao menos para chamar a atenção para essa questão. No entanto, a entidade segue batendo na mesma tecla de multar em valor irrisórios federações cujas torcidas entoam cantos homofóbicos, racistas ou similares. Muito pouco para quem tem tanto poder, tanto dinheiro e o melhor poder de barganha do planeta: a Copa do Mundo.

Crédito: www.dfb.de

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