Erros, acertos e, enfim, uma eliminação sem vexame


A Bélgica foi melhor no primeiro tempo, o Brasil foi melhor no segundo. Mesmo assim, esteve longe de jogar tudo aquilo que podia – e que nós (e o resto do mundo) esperávamos. A melhora na segunda etapa e a excelente entrada de Douglas Costa não foram suficientes para empatar a partida. A sorte esteve do lado deles, e de um espetacular goleiro de 2m de altura. O Brasil se despede da Copa nas quartas de final, muito longe do que se imaginava do melhor elenco canarinho desde 2006, mas sem vexame pela primeira vez nas últimas cinco eliminações.

O mérito belga

A Bélgica tem um excelente, porém inexperiente elenco. A badalada “geração belga” decepcionou no Brasil – foi eliminada nas quartas, mas em nenhum momento mostrou o futebol que se ansiava dela – e chegou mais atenta à Rússia. A principal diferença está no banco: Roberto Martínez. Apesar de ter mais bagagem que Marc Wilmots, que comandou a equipe em 2014, Martínez tampouco é um treinador com um vasto currículo, mas ficou conhecido por tirar leite de pedra e fazer boas campanhas com times pequenos e de elenco limitado, como Swansea e Wigan. A vivência no futebol inglês também foi um diferencial contra a equipe de Tite, como vou explicar logo mais.

Contra o Brasil, o que mais pesaria seria a camisa – ou a falta de peso da camisa belga. Em 2014, a Bélgica só caiu quando finalmente enfrentou uma seleção tradicional, a Argentina. Diante de um favorito ao título que conta com um grande poder de fogo – mesmo que estivessem ainda longe de seu potencial máximo, Neymar, Coutinho, Willian e Gabriel Jesus formam um quarteto que impõe respeito e dá medo ao adversário –, a opção belga foi arriscada: reforçar a defesa e a marcação e apostar nos contra-ataques de seu poderoso trio ofensivo: Lukaku, Hazard e De Bruyne, que não deixam muito a desejar quando comparados ao quarteto brasileiro.

Martínez estudou o Brasil e corrigiu os erros cometidos contra o Japão. Na escalação, três zagueiros, Vertonghen, Kompany e Alderweireld, e um meio de campo de contenção, com Chadli, Meunier, Fellaini e Witsel. Chadli e Fellaini entraram nos lugares de Carrasco e Mertens. O meia que trocou o Atlético de Madrid pelo milionário futebol chinês fora muito mal contra o Japão, deixando buracos que o ataque japonês soube bem aproveitar. Já o atacante do Napoli vinha fazendo uma Copa razoável, mas a sua ida para o banco liberaria De Bruyne das obrigações defensivas, atuando como meia e com liberdade para mostrar sua criatividade, como faz no Manchester City. Não deu outra: De Bruyne brilhou, marcou um belo gol e foi eleito o melhor em campo – apesar de eu ter achado a atuação de Courtois mais decisiva.

A entrada de Chadli e Fellaini já havia, inclusive, se mostrado acertada contra o Japão, quando a Bélgica perdia de 2 a 0. Fellaini igualou o marcador de cabeça, e a jogada do gol da virada saiu com uma arrancada de De Bruyne – atuando mais à frente, depois da substituição de Mertens pelo grandalhão do Manchester United – que culminou na finalização do meio-campista do West Bromwich. Um contra-ataque perfeito e mortal que, se tivesse sido estudado pelo Tite, não teria resultado no segundo gol belga contra o Brasil.

Na frente, Hazard e Lukaku completaram o trio ofensivo. Os três estão entre os melhores jogadores da atualidade e, sem sombra de dúvida, os melhores da “geração belga” juntamente com o goleiro do Chelsea. Para o trio, sobra velocidade, criatividade, visão de jogo e poder de finalização. E Martínez apostou justamente na anulação do quarteto ofensivo do Brasil, corrigindo os erros defensivos mostrados nas oitavas de final, e na velocidade e no talento de seus homens de frente. O primeiro gol belga foi fruto da sorte – ou do azar brasileiro –, mesmo que Kompany tenha se adiantado à marcação e contribuído para confundir Fernandinho e Gabriel Jesus, mas o segundo nasceu da inteligência de Martínez, e toda vez que a Bélgica saía em contra-ataque eu torcia para não ser mais um 7 a 1. O 2 a 0 no fim do primeiro tempo ficou barato.

A opção por um meio de campo mais defensivo com De Bruyne jogando mais à frente não se deu apenas para conter os jogadores criativos do Brasil, mas também para explorar as deficiências da equipe de Tite. Miranda e Thiago Silva vinham fazendo uma excelente Copa – exceção feita à falha de marcação no gol da Suíça – e formam uma dupla de zaga segura, mas Casemiro, de longe o melhor brasileiro na Rússia, não jogaria as quartas de final. O volante do Real Madrid é o jogador-chave tanto da equipe espanhola quanto da Seleção: sua atuação defensiva permite que Marcelo e Carvajal/Daniel Alves/Fagner avancem sem deixar a zaga exposta, ao mesmo tempo em que suas investidas no campo de ataque vira e mexe resultam em belos gols de fora da área.

Sem Casemiro, Tite optou por Fernandinho. Depois de 2014, passei muito tempo dizendo que o principal culpado de ao menos três gols da Alemanha nunca mais poderia vestir a camisa da Seleção. No Manchester City de Guardiola, Fernandinho se redimiu. Fez uma excelente temporada e reconquistou a vaga no time brasileiro. Apesar da minha implicância, o gol contra do volante não foi exatamente culpa sua, mas certamente abalou o aspecto emocional de um jogador que fora o principal culpado do pior vexame da história do futebol brasileiro. Sem poder contar com Casemiro, Tite não teve alternativa a Fernandinho, que teve uma péssima atuação e mesmo assim ficou em campo até o apito final.

Martínez não tinha como saber que o jogador do City teria outra noite sombria com a camisa canarinho, mas, ciente de que os laterais brasileiros avançam e muitas vezes não voltam ao campo defensivo a tempo de parar o contra-ataque adversário, optou por essa arma para pegar a defesa brasileira desguarnecida diante da velocidade de Hazard, Lukaku e De Bruyne. Tanto como jogador quanto como técnico, Martínez fez carreira no futebol inglês, uma liga cuja velocidade em campo faz as partidas do Brasileirão parecerem corrida de tartaruga. Com três jogadores jovens e velozes e que são os destaques de três dos principais times da Premier League, Martínez fez uma aposta arriscada, porém acertada.

O demérito brasileiro

O Brasil melhorou muito no segundo tempo, sem sombra de dúvida. Mas não foi o suficiente. Teve azar, é claro, e, se as rebatidas de Thiago Silva e Paulinho após escanteios ainda na etapa inicial tivessem balançado a rede, o jogo poderia ter sido outro. Mas futebol não se resume a sorte ou azar.

Neymar quer ser o melhor jogador do mundo. Já se tornou o mais caro, mas ainda não herdou o reinado de Messi e Cristiano Ronaldo. Ao contrário dos jogadores do Barcelona e do Real Madrid (ou da Juventus?), porém, Neymar atua em uma excelente seleção nacional, ao lado de Philippe Coutinho, Willian e Gabriel Jesus, e não Pavón, Banega, William Carvalho ou Gonçalo Guedes. E mesmo assim o que vai ficar de Neymar na Copa da Rússia é o (péssimo) teatro e as roladas pelo chão. Que o atacante brasileiro seria bem marcado todo mundo já sabia, menos ele e o Tite. O que faz o craque, então? O craque ou desmonta a marcação com dribles e passes rápidos, ou chama a marcação para deixar os companheiros livres. E Neymar não fez nem um nem outro. Não só diante da Bélgica, mas em todo o Mundial. Em Kazan, a preferência de Neymar pelas jogadas individuais que não resultam em nada resultou, na verdade, nos contra-ataques belgas: não foram poucas as ocasiões em que o ex-santista perdeu a bola na entrada da área e poucos segundo depois a equipe europeia ameaçava a meta de Alisson.

É claro que o atleta do Paris Saint-Germain não jogou tão mal, mas tampouco jogou acima da média. Deixou Coutinho na cara do gol no fim da partida, fez Courtois se esticar todo nos minutos finais e criou mais uma ou outra jogada de destaque. Muito pouco para quem quer ser o melhor mundo. Muito pouco para quem termina o primeiro tempo perdendo de 2 a 0. Muito pouco para quem disse que, juntamente com Coutinho e Gabriel Jesus, poderia trazer o hexa.

Não vou nem falar de Gabriel Jesus porque ainda estou esperando ele entrar em campo na Copa. Já Coutinho foi o melhor do quarteto ofensivo do Brasil, mas ainda ficou longe do que mostrou no Liverpool e na própria Seleção nos últimos anos. E Willian, depois de acordar contra o México, não vinha fazendo uma má partida na última sexta-feira, mas é sempre ele o sacrificado para a entrada de Douglas Costa – que, mais uma vez, colocou fogo no jogo. O ala da Juventus, aliás, apesar de polivalente, atua melhor pela esquerda, mas Neymar não só é intocável, como também irrepreensível, visto que repetiu os mesmo erros bobos e o comportamento infantil em todas as partidas da Copa.

Do mesmo jeito que o mérito belga foi principalmente de seu treinador, as deficiências brasileiras foram de responsabilidade primordial de Tite. O técnico brasileiro deu quatro chances a Gabriel Jesus, e nas quatro o Brasil atuou com 10 jogadores. Nas quartas de final, uma quinta chance que nem o bom início de carreira no Manchester City justifica. Além disso, todas as vezes, até as oitavas, em que Roberto Firmino entrou em campo, o Brasil melhorou. Mesmo assim, Tite insistiu no atacante do City, e morreu abraçado a ele.

Em todos os jogos, as alterações promovidas pelo selecionador brasileiro foram limitadas a trocar um jogador pelo seu reserva imediato, ou quase. Willian por Douglas Costa, Gabriel Jesus por Firmino, Casemiro por Fernandinho, Paulinho por Renato Augusto. Em momento algum Tite ousou. Em momento algum Tite abriu mão do 4-2-3-1 para promover alguma mudança tática. É verdade que o esquema brasileiro vinha funcionando muito bem desde que o treinador assumira, mas Copa do Mundo não é Eliminatórias e muito menos amistoso. Com o talento que tinha em mãos, Tite tinha a obrigação de promover variações táticas. Coutinho atua mais à vontade pela esquerda, e nunca trocou de posição com Neymar ou mesmo Willian – vale lembrar que o gol que abriu o placar contra o México saiu de uma rara jogada do ala do Chelsea pela esquerda. O próprio Douglas Costa mudou a cara das partidas em que entrou, mas se limitou à ala direita.

O desfalque de Daniel Alves promoveu Danilo à titularidade e, posteriormente, Fagner. Sob pressão, ambos os laterais ficaram completamente presos e limitados a tentar não errar, sem atacar com perigo – só me lembro de ter visto Fagner chegar à linha de fundo e cruzar diante do México – e sem defender incisivamente. Marquinhos, que no Paris Saint-Germain muitas vezes joga de lateral ou até de volante, só saiu do banco com o resultado garantido diante dos mexicanos. Fred e Taison, cujas convocações foram muito criticadas, foram à Rússia a passeio.

E se Martínez estudou a Seleção e armou o seu time de acordo com o adversário, Tite manteve o mesmo Brasil de sempre. Se Martínez corrigiu os erros cometidos contra o Japão, Tite não conseguiu acertar as falhas brasileiras. E nem soube aproveitar os erros belgas. Certa vez vi uma entrevista com um dos melhores tenistas da história (que agora me falha a memória se foi com Roger Federer ou Pete Sampras), em que ele dizia que define seu estilo de jogo de acordo com o adversário. Ora, pois se o tenista número 1 do ranking se prepara de acordo com o que espera que o rival faça em quadra, por que Tite não organizou a Seleção Brasileira para enfrentar a “geração belga”? Se tivesse levado em consideração o talento, a altura e envergadura de Courtois, teria incentivado a criação de jogadas como a que resultou no gol de Renato Augusto (com o volante aparecendo de surpresa dentro da área após um belo passe de Coutinho), ou a já mencionada troca de posições dos atacantes.

Se Tite tivesse ao menos visto o belo contra-ataque que resultou no gol de classificação da Bélgica às quartas de final, após estar perdendo por 2 a 0, De Bruyne não teria feito o segundo gol belga diante do Brasil. Na jogada, os Diabos Vermelhos avançam com três jogadores: Lukaku com a bola pelo centro, e De Bruyne e Hazard pela direita. Na defesa brasileira, apenas a dupla de zaga. A Seleção recua e SEIS jogadores acompanham o centroavante do Manchester United, que passa como quer por Fernandinho, enquanto seus companheiros ficam livres à direita. Um passe certo de Lukaku, uma bela finalização de De Bruyne, e um Brasil atordoado precisando fazer dois gols para voltar ao jogo.

Vários capitães, nenhum líder

A ausência de um capitão de verdade no sistema de braçadeira rotativa de Tite era para ter sido tema de um post em si próprio, mas vou testar a paciência do leitor para com textões e incluir esse tema na análise dos erros do nosso treinador. Na Inglaterra, por exemplo, ser capitão de um time ou uma seleção é uma verdadeira honra. Capitão é não só o jogador que assume as reclamações perante o juiz ou o adversário, mas aquele que lidera, incentiva e acalma, dependendo do que a situação pedir. Levar a flâmula do seu país é uma grande responsabilidade. Não à toa John Terry perdeu esse direito ao dormir com a esposa de um colega. Já no Brasil, em 2014, nosso capitão chorou na cobrança de pênaltis, se afastou do grupo que se reunia antes dos tiros finais e nem ao menos olhou os companheiros que se voluntariavam para tentar colocar o Brasil nas quartas de final.

A ideia de Tite ao fazer um rodízio de capitães era distribuir entre os principais jogadores a tarefa de liderar a Seleção, mas se mostrou um tiro no pé: não ter um capitão fixo não diluiu a liderança, mas evidenciou que nenhum jogador é líder. Miranda é quieto, Neymar é infantil, Casemiro é tímido, Daniel Alves não pôde ir à Rússia, Marcelo passou duas partidas no banco e Thiago Silva... Bem... Acho que já falei o suficiente sobre a capitania do zagueiro do PSG.

Quando Neymar deu piti ao cair cem vezes no campo, ter um pênalti teatral invalidado ou ser pisado pelo adversário, nenhum jogador teve a coragem de colocá-lo em seu devido lugar – nem mesmo Tite. Quando o Brasil esteve atrás no placar pela primeira vez no Mundial, não teve um Didi (que nem capitão era) para pegar a bola no fundo da rede, colocar no círculo central e dizer: “Tranquilos, ainda tem muito jogo”. Quando Renato Augusto diminuiu a diferença no marcador, faltando ainda 15 minutos para o fim do tempo regulamentar, não houve um jogador que incentivasse a seleção a colocar uma pressão “blitzkrieg” sobre um adversário que já jogava recuado.

Ao menos sem vexame

O Brasil cometeu diversos erros, alguns que já deveriam ter sido corrigidos antes das quartas de final, e caiu diante de um adversário que, se não foi superior na partida como um todo, se preparou melhor e soube aproveitar melhor as chances que teve. A Seleção, porém, se despediu da Copa jogando, ainda que não o que se esperava dela. E, para mim, que perdi a voz e a paciência diante da apatia contra a França em 98, a soberba contra a mesma França em 2006, as burrices de Dunga e Felipe Mello contra a Holanda em 2010 e o apagão inexplicável contra a Alemanha em 2014, fui dormir na sexta à noite com a cabeça ainda quente, mas consegui acordar mais tranquila. Rumo ao Qatar 2022...

Crédito: fifa.com/Getty Images e Facebook Belgian Red Devils

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