Fifa, Rússia e a homofobia no futebol


Dia 28 de junho é o dia internacional do orgulho LGBT. E a Fifa, que organiza um campeonato internacional de futebol num país onde a homofobia é institucionalizada, a Rússia, perdeu uma oportunidade de ouro de se manifestar contra o preconceito à homossexualidade. Antes de a bola rolar na tarde desta terça-feira entre Portugal e Chile, jogadores de destaque apareceram lendo roboticamente mensagens contra o racismo na televisão e no telão do estádio. Mas nada contra a homofobia. Mais uma bola fora da Fifa.

Já não bastasse a Fifa ter entregado a Copa do Mundo para a Rússia e o Qatar, dois países extremamente homofóbicos, Joseph Blatter, então presidente da entidade, disse em 2010 que os homossexuais que gostariam de vivenciar a Copa de 2022 no país árabe deveriam se abster de ter relações sexuais, uma vez que a homossexualidade é passível de prisão no Qatar. Em 2018, o Mundial será realizado na Rússia, país notório pelo racismo e pela homofobia, e a Fifa, que se esquiva também quando o assunto é as péssimas condições de trabalho dos trabalhadores contratados para a construção e as reformas dos estádios em ambos os países, achou que uma "campanha" contra o racismo era suficiente para maquiar sua péssima escolha ao entregar seu produto mais valioso, a Copa do Mundo, a um país que permite a prisão de homossexuais em campos de concentração.

E nem o racismo a Fifa combate de forma efetiva. O preconceito contra negros e outras etnias talvez seja ainda mais evidente no futebol porque já faz muito tempo que os jogadores não precisam mais disfarçar seu tom de pele para entrar em campo, como acontecia, por exemplo, com Carlos Alberto no Fluminense na década de 1910. Hoje em dia o negro entra em campo ao lado do branco, mas nem por isso deixa de ser alvo de bananas atiradas pela torcida, gritos e gestos de macacos ou de ofensas até de adversários durante o jogo, principalmente na Rússia. Para "combater" essa prática infelizmente ainda tão comum no futebol, a Fifa criou, em 2013, uma força-tarefa para analisar os casos de racismo e sugerir medidas de combate, visando, principalmente, à Copa na Rússia. Mas a própria entidade extinguiu o órgão três anos depois, alegando que medidas contra o racismo já estavam em curso. Não encontrei nenhum estudo sobre o tema, mas não consegui perceber uma diminuição recente das ofensas racistas nos estádios e tampouco lembro de casos onde ofensores tenham sido rigorosamente punidos.

O jogador homossexual, por outro lado, ainda esconde sua orientação sexual, com medo de ser perseguido até pela torcida do próprio time. E não é porque o problema não está "evidente" (entre muitas aspas) que ele não existe. No início deste mês, Dinamarca e Alemanha se enfrentaram em um amistoso onde ambos os capitães usavam uma braçadeira com as cores da bandeira do orgulho LGBT, em campanha contra a homofobia e pela tolerância. Neste mês em que se comemora o orgulho LGBT, a ESPN Brasil exibiu uma série de excelentes reportagens, feitas pela jornalista Gabriela Moreira, que evidenciam a homofobia no futebol. O canal também trocou seu avatar nas redes sociais por uma logo com as cores da bandeira LGBT. No futebol brasileiro, Flamengo, Internacional, Grêmio e Avaí, além do Estádio do Mineirão, se manifestaram hoje, por meio de suas redes sociais, em prol do orgulho LGBT e da diversidade.

A homofobia, assim como o racismo, ainda é um problema grave no futebol, esporte mais popular do mundo. E, depois de tantas bolas fora, a Fifa desperdiçou uma excelente oportunidade de aproveitar o dia de hoje e a partida pela semifinal da Copa das Confederações na Rússia para começar uma necessária campanha em prol da tolerância e da diversidade.

Créditos: Twitters DFB_Team, DBUfodbold, Flamengo, AvaiFC, SCInternacional, Gremio e Mineirao.

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    Sobre a autora

    Apaixonada por futebol desde 1981.

    Entusiasta de quase todos os outros esportes.

    Turista de estádios.

    Combinando a bola no pé e os dedos no teclado em seu próprio espaço.

     

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