Seu pé esquerdo


Eu não jogo Fifa com a frequência que gostaria. Porém, certa vez, jogando sozinha em casa, com o Bayern de Munique, no momento em que a bola estava com o Robben, avancei pela direita, cortei para a esquerda e meti a bola no ângulo, exatamente como o ponta holandês faz. Mesmo sem ninguém para testemunhar, levantei, cerrei o punho, gritei e comemorei: eu havia acabado de marcar um "gol a la Robben" exatamente com um dos meus jogadores prediletos de todos os tempos.

Esta semana, Arjen Robben escreveu no The Players' Tribune, plataforma online de textos escritos por atletas, uma "carta a um jovem mim". E, no texto onde faz um pequeno apanhado de sua carreira e flerta com a proximidade da aposentadoria, o atacante diz: "E, aliás, seu pé esquerdo? Especificamente, vir da ponta direita e chutar com a canhota? Treine isso. Pratique isso. Será útil mais vezes do que você poderá contar. Confie em mim nessa". Eu não vi Garrincha jogar, mas os que viram costumam dizer que, mesmo que todo mundo soubesse que ele iria driblar para a direita, sempre caíam no drible, sempre acabavam deixando ele passar, pois era impossível marcá-lo, não importa o quão previsível ele fosse. Robben não é tão driblador quanto o ponta brasileiro, mas, assim como Garrincha, mesmo que o marcador saiba que o holandês provavelmente vai cortar para a esquerda e finalizar, é impossível impedi-lo de fazer a jogada que se tornou sua marca registrada.

Eu reparei em Robben pela primeira vez na Eurocopa de 2004. A Holanda parou na semifinal, eliminada pelo anfitrião Portugal, mas o atacante, aos 20 anos de idade, brilhou, mesmo não tendo feito gol. Após a Euro, Robben foi para o Chelsea e, posteriormente, para o Real Madrid, sempre com o status de novo grande astro do futebol mundial. No entanto, as seguidas lesões impediram que o holandês confirmasse as expectativas a seu respeito.

Como o próprio Robben explica no texto do The Players' Tribune, a saída do Real Madrid rumo ao Bayern foi vista, inicialmente, como um passo atrás. Todavia, foi na Alemanha que o holandês conseguiu finalmente demonstrar todo seu talento. As lesões continuaram, mas em algum momento se tornaram menos frequentes e sérias. Sob comando de Louis van Gaal, o Bayern de Robben e Ribéry desenvolveu o estilo de jogo que vigora até hoje - e que fez até Pep Guardiola rever seus conceitos -, com o holandês pela direita e o francês pela esquerda, enlouquecendo os marcadores. Em 2010, a equipe bávara ainda não era o super-time que viria a se tornar alguns anos mais tarde, mas chegou à final da Champions. No mesmo ano, Robben chegou também à final da Copa do Mundo e começou a ser taxado de "amarelão", por sempre deixar os troféus escaparem.

Para mim, porém, não importava: eu já era sua fã, cada vez mais encantada com o futebol veloz e fascinante do holandês. Van Gaal deu lugar a Jupp Heynckes, e novamente o Bayern ficou no "quase": vice-campeão da Bundesliga, da Copa da Alemanha e da Champions em 2012, perdendo o título para o Chelsea em casa, na Allianz Arena, nos pênaltis. Reclamão e cavador de faltas, Robben conquistou a antipatia de muitos. Mas tudo mudou nos dois anos seguintes.

2013 foi o ano mais espetacular da história do Bayern: Bundesliga, Copa da Alemanha, Champions, Supercopa da Uefa e Mundial de Clubes. Foi de Robben a assistência para Mandzukic abrir o placar na final europeia contra o Borussia Dortmund (em 2013 foi a vez de o Borussia ser "tri-vice") e o gol decisivo faltando um minuto para o fim da partida, calando a boca dos críticos. Guardiola chegou, e na temporada 2013/14 Robben, que não é conhecido pelo faro de gol, marcou 29 gols em 56 partidas - pelo menos seis deles avançando pela direita, cortando para a esquerda e finalizando com a canhota (que eu tenha encontrado na internet). Mas foi no Brasil que o atacante encontrou seu auge. A Holanda terminou a Copa do Mundo em terceiro lugar, o vice-campeão Lionel Messi foi eleito o melhor jogador do torneio, e ficou célebre o meme de José Maria Marín entregando o troféu individual a um cabisbaixo Messi com a legenda "entregue isto a Robben quando o encontrar". Não foram poucos os jornalistas e especialistas que apontaram o holandês como o melhor jogador do torneio, e mesmo assim Robben não deu muita atenção à sua trajetória com a camisa holandesa no texto.

Desde então, Robben joga um pouco mais leve. Em seu texto, ele diz que "mesmo aos 33 anos, a fome que você tem agora (aos 16) ainda está aqui". Diz ainda que não sabe quando essa fome irá embora, se no ano seguinte ou no próximo. Na última temporada, o atacante disputou 41 partidas, número impressionante para um jogador com a sua idade e que tem como uma de suas principais características a velocidade. O Bayern e a seleção holandesa passam por momentos de renovação, e ele segue titular indiscutível e essencial. Enquanto a fome ainda estiver lá, ainda veremos muitos cortes para a esquerda com a bola saindo da canhotinha do holandês rumo ao fundo da rede.

Crédito: facebook FC Bayern

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