O brilho de Kaká


Kaká foi um dos melhores jogadores que eu vi jogar. No seu auge, era rara uma partida do Milan em que ele não brilhava - e brilhava muito. O meia carregou a Seleção Brasileira quase sozinho em duas campanhas (fracassadas) de Copa do Mundo e, se não conseguiu levar a equipe a passar das quartas-de-final em 2006 ou 2010, ao menos tem na estante um troféu de campeão do mundo quando, em 2002, foi a surpresa da convocação de Felipão. Esta semana, Kaká anunciou que não renova com o Orlando City, sem dizer se está ou não se aposentando. Li também por aí, mas não tenho certeza quanto à credibilidade da informação, que ele teria dito que não desfruta mais de jogar futebol, pois sente dores depois de cada partida. Pode ser que essas palavras nunca tenham saído de sua boca, mas é notável a queda de rendimento de Kaká a partir do fim da década de 2000 e início da década de 2010, o que provavelmente tem muito a ver com lesões e dores.

O brasileiro despontou no São Paulo e em pouco tempo foi vendido ao Milan. Sua adaptação ao futebol italiano foi instantânea, e logo vimos o jovem de 21 anos comandando uma equipe que contava com Cafu, Maldini, Nesta, Roque Júnior, Seedorf, Serginho, Gattuso, Pirlo, Ambrosini, Schevchenko e Inzaghi, deixando Rui Costa e Rivaldo no banco. Com o holandês, Kaká fez uma das melhores parcerias de meio-campo que eu já vi, e ninguém segurava aquele Milan. O time rossonero sobrou na Champions em 2006/7, o meio-campista foi o artilheiro da competição, com 10 gols, e ainda deu show em algumas partidas decisivas, como a semifinal contra o Manchester United, em que fez os dois gols milanistas no Old Trafford e mais um na vitória por 3 a 0 no San Siro. Naquele momento, não existia jogador melhor no mundo.

Kaká foi também um dos últimos românticos do futebol. O jogador não foi criado no Milan, mas foi acolhido pela torcida ainda jovem, criou uma relação com o clube e nunca cansou de demonstrar seu amor ao Rossonero. Como quando, por exemplo, foi assediado pelo novo rico Manchester City. Já se dava o negócio como praticamente fechado, mas ele preferiu ficar e saiu à janela de casa com a camisa do Milan para mostrar aos torcedores de plantão em sua porta que permaneceria em Milão. À época, a oferta por Kaká teria sido de 105 milhões de euros, com salários igualmente recordistas - vale lembrar que apenas em 2016, quase 10 anos depois, a contratação de Pogba chegou a esse valor. Kaká ficou no Milan não só por amor e gratidão ao clube e à torcida, mas também porque a tradição da camisa rossonera falou mais alto que as libras árabes de Manchester, mesmo que o time já não fosse o mesmo. O meia ainda foi assediado por Chelsea e Real Madrid até o Milan decidir que não podia mais se dar ao luxo de negar as poderosas investidas pelo brasileiro, que, a contragosto, fechou com o Real Madrid.

A carreira de Kaká deixou de brilhar a partir de 2009. Primeira aquisição do segundo projeto Galácticos de Florentino Pérez, o jogador sofreu com repetidas lesões em sua primeira temporada no Real e, mesmo tendo carregado a Seleção nas costas na África do Sul, Kaká nunca mais foi o mesmo. A pressão de uma grande contratação no Real Madrid, ao qual chegou junto com Cristiano Ronaldo, foi bem diferente da de uma jovem aposta no Milan, a pubalgia passou a incomodar bastante, e Kaká deixou de estar entre os preferidos dos técnicos. Sem conseguir completar sequências de partidas, o brilho passou a ser ocasional, isolado. Foram quatro temporadas decepcionantes na capital espanhola até Kaká voltar a um Milan já desfacelado e, em seguida, aos 32 anos, ir jogar nos Estados Unidos.

Quando se olha a carreira de Kaká em retrospectiva tem-se a nítida certeza de que algo não deixou que ele rendesse tudo o que poderia por mais tempo. Tivesse o meia brilhado no Real Madrid como fez no Milan, certamente entraria no panteão dos melhores de todos os tempos. Mas o brilho de Kaká foi intenso, porém relativamente curto. Uma pena, pois vê-lo arrancar do campo de defesa ou colocar, de fora da área, aquela bola no ângulo foram algumas das minhas melhores alegrias no futebol.

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