Geração francesa


A Áustria não é um país muito boleiro. Eu já disse por aqui que o esporte número 1 do país é o esqui (!). Mas Copa do Mundo é Copa do Mundo, e mesmo que o Nationateam não se classifique para um Mundial desde 1998, na pequena cidade onde eu moro, de 100 mil habitantes, todos os bares e restaurantes têm suas TVs ligadas nos jogos, além, é claro, de um telão enorme na principal praça de Klagenfurt, com mesas, bancos e tendas vendendo comida e bebida. No domingo, com a seleção da Croácia enfrentando a Dinamarca por uma vaga nas quartas de final, a praça parecia uma grande toalha de piquenique, tamanha era a quantidade de croatas que vivem por aqui e se reuniram para acompanhar a equipe.

No entanto, independentemente do Mundial, a reta final do semestre do meu mestrado exigiu mais do que o que eu gostaria, e o tempo para assistir aos jogos, acompanhar as notícias e os comentários pós-partidas e escrever por aqui foi mais do que raro.

Semestre acabado, voltemos ao blog.

A primeira fase da Copa teve algumas surpresas, muitas boas partidas e diversos destaques, mas não vai dar pra comentar tudo retroativamente. Vamos, então, por partes.

A geração francesa. Muito se fala da geração belga, mas ninguém se refere a essa reunião de craques franceses como uma geração. É claro que a França tem muito mais tradição no futebol que a Bélgica. E já teve outras gerações de destaque, como 82/86 ou os campeões mundiais de 98 e da Euro 2000, além de ter dado ao mundo muitos craques. Mas não há como negar que essa leva de jogadores tem um “quê” a mais, principalmente se levarmos em conta os resultados ruins das últimas campanhas francesas nas principais competições.

A descoberta e o desenvolvimento de talentos como Mbappé, Pogba, Pavard, Varane, Mendy, Tolisso, Dembélé e até alguns que ficaram fora do Mundial, como Rabiot e Coman, não foi por acaso, assim como na Bélgica. O famoso centro de Clairefontaine, que abriga os melhores jogadores do país entre 13 e 15 anos, assim como a seleção principal, é o auge dessa formação, mas a França tem outros 11 centros de formação e desenvolvimento de talentos, além das academias do próprios clubes das séries A e B.

Clairefontaine foi inaugurado em 1988 e por lá passaram craques como Henry, Anelka, Gallas, Diaby, Matuidi e, mais recentemente, Mbappé. Mas o grande trunfo do projeto francês é estabelecer diversas academias pelo país, uniformizando o treinamento dos jovens de acordo uma filosofia única de jogo, assim como fez, por exemplo, Cruyff nas categorias de base do Barcelona.

O modelo belga, que conta com oito academias nacionais de formação que seguem o mesmo estilo de jogo, foi inspirado no francês. E, assim como a França, a Bélgica se beneficiou de uma maior integração com imigrantes ou filhos de imigrantes. Na França, porém, essa integração ainda tem muito a evoluir. Não faz muito tempo o então técnico da seleção francesa, Laurent Blanc, foi gravado em uma reunião da federação do país criticando jogadores que “se aproveitavam” da formação francesa para, depois de passar pelas equipes de base dos Bleus, defender a seleção principal do país de seus pais, normalmente equipes africanas. Blanc defendia uma cota máxima para jogadores de dupla nacionalidade nos centros de formação franceses, e, depois que o áudio foi vazado, o ex-jogador não conseguiu se manter por muito mais tempo no comando da equipe.

No time principal, essa integração às vezes parece estar só no papel. Jogadores como Benzema e Zidane já foram muito criticados por não cantarem o hino francês, mas essa atitude quase não é vista na equipe atual. Em campo, o clima parece melhor que nas gerações e nas competições passadas, mas a sociedade francesa como um todo ainda tem que evoluir muito para integrar os franceses de ascendência africana, e é claro que essa barreira social e racial tem reflexos na equipe nacional – sobre esse tema, fica a dica: o ótimo documentário “Leu Bleus”, presente na Netflix.

Que individualmente a França tem o melhor time da Copa, eu não tenho dúvidas. Na primeira fase, porém, não jogou nem metade do futebol que se espera dela. Vitórias insossas contra Austrália e Peru e um empate burocrático contra a Dinamarca. Só não foi maior decepção que Alemanha e Argentina porque... Bem, nem precisa explicar, né? Mas os Bleus acordaram nas oitavas. Talvez porque finalmente enfrentaram uma equipe que demandou algum esforço. Acordaram também a Argentina, mas a França é muito mais time e o resultado foi justo.

Se mantiver o futebol mostrado contra os sul-americanos, a seleção francesa é favorita ao título mundial. Mbappé acordou, Pavard mostrou ao mundo que existe, Varane e Kanté demonstraram a segurança de sempre. Griezmann e Matuidi também tiveram boas exibições, mas já passa da hora de Giroud ir para o banco – Fekir e Thauvin pedem passagem. Dembélé e Pogba, porém, ainda podem fazer mais. E Umtiti vai ter muito trabalho contra Cavani e Suárez se continuar perdido em campo como fez durante quase toda a temporada, seja no Barcelona ou na seleção.

Acho ainda que Deschamps está longe de ser o técnico que essa coleção de talentos merece, mas Zidane está curtindo as férias, e quem sabe não veremos Zizou novamente na seleção após a Copa? Se esse sonho virar realidade, já podemos pular a Copa do Qatar 2022...

Crédito: Facebook Équipe de France de Football

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