Quem tem medo do English Team?


No excelente livro “A Pirâmide Invertida: A História da Tática no Futebol”, de Jonathan Wilson, o escritor e jornalista inglês faz uma detalhada análise dos diversos estilos e táticas de jogo ao longo da história do futebol, mas peca em um aspecto: segundo ele, a seleção inglesa ainda faz parte da elite, é uma de oito ou dez equipes no mundo com uma chance real de ganha uma Copa e as decepções em 2010 (quando foi goleada pela Alemanha nas oitavas de final – vale lembrar que a edição que eu li foi escrita antes do Mundial de 2014) ou 2008 (quando não se classificou para a Europa) não evidenciam um declínio do English Team.

O meu conceito de “elite do futebol” é um pouco diferente do de Wilson. Para começar, uma equipe que tem apenas um título mundial, conquistado, não sem polêmica, há mais de 50 anos, que só participou dessa final e, além de 1966, uma única semifinal de Copa não pode estar no mesmo grupo de uma seleção com cinco títulos mundiais, dois vice-campeonatos e um total de 11 participações em semifinais, ou um time com quatro taças, oito participações em finais, 12 semifinais de Copa do Mundo e três títulos europeus, além de três vice-campeonatos e nove participações em semifinais da Euro, como a Alemanha, por exemplo.

Números à parte, outro aspecto muito importante coloca uma seleção nesse tal grupo de elite: uma revolução tática, uma – ou mais – equipe legendária, ou uma escola que influenciou o futebol em outros países e marcou a história desse esporte. São os casos, por exemplo, da Itália, da Argentina, do Uruguai, da Holanda – todas essas seleções que superam a Inglaterra também em números, mesmo que a Holanda nunca tenha conseguido um título mundial em suas três finais – e até da Áustria e da Hungria, estas duas sim equipes que tiveram um declínio e não conseguiram manter o nível de seleções passadas.

A minha ideia de elite, portanto, é bem mais restrita que a de Wilson e, no máximo, eu diria que a Inglaterra faz parte de um segundo escalão do futebol mundial, mas nunca afirmaria que ela é uma equipe que sempre tem uma chance real de ganhar a Copa.

É claro que o futebol começou na Inglaterra, mas ganhou o mundo há mais de um século, foi aprimorado por diferentes escolas, e o mito de que os ingleses são os “donos da bola” caiu há muito, muito tempo. Oficialmente, quando a Hungria derrotou o English Team por 6 a 3 em Wembley em 1953. Mas mesmo antes disso a Inglaterra, mesmo que ainda temida, já não era uma superpotência se comparada às demais seleções.

Para começar, a Inglaterra inventou o futebol, mas então o jogo quase nada tinha a ver com o esporte que conhecemos hoje. Parecia mais a pelada do seu filho de 4 anos nos jogos da escola: todo mundo correndo atrás da bola chutando lama. O futebol virou futebol quando “descobriram” o passe, e isso aconteceu na Escócia. E desde então foram muitas as mudanças.

Além de ter participado de apenas uma final de Copa e duas semifinais, a Inglaterra nem ao menos jogou uma final de Eurocopa. No torneio continental, foram apenas duas semifinais, sendo a última em 1996. Se expandirmos a análise às quartas de final, aí sim podemos encontrar mais participações inglesas, mas um time que se propõe ser temido pelos adversários deve ir além das quartas. Ou não ficamos decepcionados com duas eliminações seguidas em quartas de final da Seleção Brasileira (2006 e 2010)?

Em se considerando o desempenho recente da Inglaterra, na última Copa ela não passou da fase de grupos, conseguindo seu único ponto na competição diante da Costa Rica, e foi humilhada pela Alemanha nas oitavas na África do Sul, depois de uma primeira fase decepcionante. Na Euro 2016, eliminação nas oitavas diante da novata Islândia e nem ao mesmo se classificou para a Eurocopa de 2008.

Resumindo, em toda grande competição a Inglaterra é alardeada, cabeça de chave e exaltada pela mídia local e até pela estrangeira. E em toda competição ela faz o feijão com arroz, quando não menos. Este ano, os ingleses têm uma chance de fazer diferente.

Esta nova geração é a mais talentosa desde o início dos anos 2000, quando o English Team contava com Gerrard, Lampard, Beckham, Rooney, Owen em forma e outros, e quiçá desde o título de 1966. Muitos dos jogadores que estão na Rússia, como Vardy, Pickford, Dier, Rashford, Alexander-Arnold ou até mesmo Harry Kane, nem consideravam a hipótese de jogar uma Copa do Mundo quando a Inglaterra deixou o Brasil sem vitórias há quatro anos. Outros vêm de seguidas temporadas em altíssimo nível, como Dele Alli, Sterling ou Lingard. E a pouca idade da maioria deles – é a terceira menor média de idade da Copa, atrás apenas de França e Nigéria – mostra que, mesmo se os ingleses decepcionarem novamente, a maturidade somada ao talento pode render frutos nas próximas competições.

Outro diferencial deste English Team para gerações anteriores está no banco: Gareth Southgate. O ex-jogador está apenas em seu terceiro desafio como treinador, mas foi escolhido para substituir Sam Allardyce em setembro de 2016 exatamente pelo bom trabalho que vinha fazendo na seleção sub-21. Assumiu o time principal temporariamente e foi efetivado dois meses depois.

Além de ser jovem e ter tido relativo sucesso na seleção como jogador, Southgate tem mais ética que os últimos técnicos da Inglaterra somados. Sam Allardyce foi obrigado a pedir demissão depois que um jornal inglês publicou imagens do treinador explicando a supostos investidores árabes como burlar regras de transferências de jogadores, e Sven Goran-Erikson foi gravado, em conversa com um falso xeque árabe, criticando seus comandados. Entre eles, Steve McLaren não conseguiu classificar a Inglaterra para a Euro 2008 e voltou a comandar times pequenos; Fabio Capello, cujo estilo retranqueiro fez sucesso na Itália na década de 1990, se tornou o treinador mais bem pago do mundo; e Roy Hodgson, entre os 65 e os 69 anos de idade, foi responsável pelos fracassos no Brasil e na França.

A renovação inglesa se dá entre jogadores e comissão técnica, o estilo, porém, ainda não mudou muito. No grupo mais desigual e fácil da Copa, a Inglaterra sofreu para bater a Tunísia e goleou facilmente o novato Panamá, mas não sem ter seu “clean sheet” maculado pela equipe mais fraca do Mundial. No duelo de reservas com a Bélgica, uma insossa derrota valeu a segunda colocação do grupo. E, nas oitavas, um empate sonolento contra a fraca Colômbia. Depois de abrir o marcador com um pênalti surreal – ninguém sabe o que Sánchez estava tentando fazer com Kane dentro da grande área –, o time inglês limitou-se ao seu campo de defesa e jamais tentou ampliar a vantagem. Além disso, dos seis gols do artilheiro Harry Kane na Rússia, três foram de pênalti. Muito pouco para uma seleção que pretende estar – ou voltar à – na elite do futebol mundial.

A derrota para a Bélgica, porém, colocou a Inglaterra no lado mais fraco da chave, já que Alemanha, Argentina e Espanha foram as maiores decepções da Copa. E o caminho até a final é bem mais fácil que o de Brasil, Bélgica, França ou Uruguai. Agora só falta jogar o futebol que o elenco inglês promete, com o peso que a camisa inglesa deveria carregar.

Crédito: thefa.com

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