Mourinho perdeu seu mojo


Que José Mourinho é um excelente treinador não há a menor dúvida – mesmo que seu estilo muitas vezes retranqueiro não me agrade. E não são apenas os títulos que dizem isso (duas Champions, duas Liga Europa (uma quando ainda era Copa da Uefa), três Premier Leagues, uma Liga Espanhola, duas Serie A, dois Campeonatos Portugueses e uma penca de copas e supercopas nacionais), mas o fato de que o português venceu ligas em diferentes países, com equipes dos mais variados estilos, que sob sua batuta sempre se tornaram timaços. Mas faz tempo que Mourinho deixou de ser um bom gestor de equipe, e isso ficou mais claro do que nunca após sua saída do Manchester United.

Desde sua passagem pelo Real Madrid Mourinho decidiu que era preciso um bode expiatório no elenco para tirar a pressão da mídia dos seus ombros. Na Espanha, o escolhido foi Casillas – logo um jogador de uma posição cujo desempenho depende tanto da estabilidade emocional e da autoconfiança. O treinador jogou elenco e mídia contra o capitão madridista, ou pelo menos tentou. Acontece que a fidelidade da imprensa esportiva madrilenha com o Real Madrid e, principalmente, com os jogadores da cantera, criados em casa, é tanta que o feitiço se voltou contra o feiticeiro.

A pressão da mídia sobre o português aumentou ainda mais e técnico e clube se viram obrigados a romper contrato de comum acordo, pois nem Mourinho suportava mais o ambiente criado por ele mesmo, nem jogadores aturavam mais o treinador, e muito menos a imprensa poderia aguentar mais uma temporada com ele no comando do time. Com a saída de Zidane e, mais recentemente, a demissão de Julen Lopetegui, a imediata especulação sobre um retorno de Mourinho foi encerada rapidamente pelo capitão Sergio Ramos: “Já temos cinco anos sem Mourinho e continuam a falar dele... E já ganhamos tudo!”. Dizem que se português chegar, ele entra por uma porta e o sevilhano sai por outra.

No Chelsea Mourinho implicou com Kevin de Bruyne, que foi brilhar no Wolfsburg e depois no Manchester City, e Juan Mata, com quem acabou reencontrando no Manchester United. Na segunda passagem por Londres, o treinador escolheu a médica Eva Carneiro. À época a única médica principal mulher entre as equipes da Premier League, a inglesa virou alvo da raiva de Mou ao atender Hazard nos acréscimos de uma partida que os Blues acabaram perdendo para o Swansea. Carneiro foi criticada publicamente pelo técnico e afastada da equipe médica presente nos jogos antes de ser demitida. Mas Mourinho não parou por aí, brigou com Diego Costa e criou um ambiente tão ruim no vestiário que alguns jogadores declararam posteriormente – e anonimamente – que preferiam perder de propósito a vencer sob o seu comando.

Em 2016 Mourinho chegou ao Manchester United para tentar realizar o sonho de todo treinador moderno de ser o substituto ideal de Alex Ferguson, e foi a vez de Bastian Schweinsteiger ser alvo da implicância do Special One. Um dos jogadores mais carismáticos do futebol moderno, é difícil imaginar o que teria levado Mourinho a afastá-lo da equipe principal. Fato é que o meia alemão passou meses treinando com a equipe sub-21 sem nunca soltar uma palavra publicamente sobre o técnico. Chegou a ganhar novamente seu espaço na equipe principal, mas optou por não deixar sua carreira à mercê do humor do português e foi defender o Chicago Fire.

Com Bastian fora do caminho, Mourinho voltou seu mau humor na direção de Paul Pogba. Jogador mais caro do mundo até Neymar trocar o Barcelona pelo PSG, Pogba voltou a Manchester para ser o comandante do time, mas retornou da Rússia com uma Copa do Mundo e um lugar no banco de reservas. E o United, que nunca jogou bem como seu elenco prometia, teve o pior início de temporada desde 1989/1990, quando Ferguson ainda não tinha se firmado no comando da equipe.

O mais impressionante, porém, é a mudança no jogo dos Red Devils depois da saída do português. Se com Mourinho era nítido que os jogadores não se divertiam em campo, pareciam obrigados jogar, foi só o português ser demitido e Ole Gunnar Solskjær assumir a equipe que o United emendou uma sequência de oito vitórias seguidas e ainda não perdeu sob o comando do norueguês. Mas não são os números que comprovam a mudança de postura, e sim o fato de que o Manchester United finalmente passou a jogar bem! Troca de passes rápidos, jogadas criativas, estilo ofensivo, jogadores motivados, correndo atrás de todas as bolas, procurando o gol, se esforçando pra não deixar a bola sair pela lateral.

Não só parece outro time – com o mesmo elenco –, como se tornou uma das melhores equipes da temporada (ao menos da metade final) e deixou o confronto com o Paris Saint-Germain pelas oitavas da Liga dos Campeões totalmente indefinido. Não fosse o primeiro turno tenebroso, poderia estar disputando o título inglês com os rivais Manchester City e Liverpool (e que disputa seria!). Para quem passou a acompanhar futebol internacional com frequência no fim da década de 1990 e se encantou com aquela geração da “turma de 92”, com aquela virada espetacular nos acréscimos na final da Champions no Camp Nou, é uma alegria sem tamanho ver o United finalmente voltar a jogar bem. Até Sir Alex voltou a sorrir nas tribunas!

Por outro lado, há jogadores que dizem que dariam a vida pelo treinador em campo, como Ibrahimovic e Materazzi – coincidentemente ambos trabalharam com o português na Inter de Milão, única equipe recente em que parece que Mourinho não teve problemas de relacionamento e da qual não foi despedido. Muito pouco para um treinador do calibre de Mourinho, principalmente se levarmos em consideração que o português deixou a Itália em 2010. Se o português quiser se manter no exclusivo rol de grandes treinadores da atualidade, não precisa abandonar o personagem carrancudo que criou para si, se não quiser, mas certamente precisará rever seus conceitos de gestão de equipe.

Créditos: manutd.com e Facebook Manchester United

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