Neymar: mercenário ou profissional?


Nas próximas horas deve ser realmente confirmada a transferência de Neymar para o Paris Saint-Germain. Eu já disse aqui que, se o objetivo de Neymar é sair da sombra de Messi e brilhar sozinho, outros grandes clubes europeus seriam uma opção melhor que o PSG. No entanto, o brasileiro parece mesmo estar em buscar de novos ares, onde possa catalisar seu crescimento, e Paris deve ser a próxima parada. Na Catalunha, porém, o atacante vem sendo bombardeado de todos os lados. Cartazes pregados próximos ao Camp Nou chamaram o brasileiro de mercenário. Nesta quarta-feira, a coluna de Lluís Mascaró, diretor adjunto do jornal catalão Sport, um dos maiores diários esportivos da Espanha, detona o jogador e sua decisão de deixar o Barcelona, dizendo que hoje em dia, no esporte, e particularmente para Neymar, o dinheiro vale muito mais do que tudo.

Eu não acho que o PSG seja a melhor decisão profissional para um dos melhores jogadores do mundo e o melhor do laureado futebol brasileiro. Porém, mesmo que a decisão de Neymar tenha sido pautada por dinheiro, e que os excessivos valores da transferência estabeleçam um precedente surreal, não há nada de errado ou imoral nela. Faz muito tempo que o futebol se tornou profissional (na Espanha, desde 1926), e dinheiro é o que pauta a maioria das decisões referentes a contratos e transferências. Me parece um pouco contraditório que um clube que até pouco tempo se negava a negociar em conjunto os valores de transmissão do Campeonato Espanhol, o que resultaria numa divisão um pouco mais igualitária e uma menor parcela de um montante exorbitante para si, possa ser a "vítima" no "caso Neymar". Um clube que, como o próprio Lluís Mascaró destacou em sua coluna, fez tramoias fiscais na compra do próprio Neymar, resultando na condenação do clube e na renúncia do presidente que fechou o negócio.

Está muito claro que a Neymar e seu pai/agente o dinheiro interessa e muito e que não foi apenas o projeto esportivo do PSG que seduziu o jogador. Na transferência para o Barcelona, as tramoias fiscais resultaram num grande valor líquido direto no bolso deles - e até hoje ninguém sabe dizer com exatidão quanto o jogador custou aos cofres do clube blaugrana. Além disso, mesmo que a notícia da transferência para o PSG tenha vazado há duas semanas, foi apenas nesta quarta-feira que o jogador se despediu dos colegas de time, confirmando sua saída. Dois dias após Neymar receber 26 milhões de euros de bônus pela renovação do contrato feita há um ano - e que teria duração total de cinco. Jogador de futebol é a profissão de Neymar. Alguém pode criticá-lo por querer ser mais bem remunerado pela função que ele foi contratado para exercer - e que vem exercendo muito bem, diga-se de passagem?

Atitudes como a de Totti, que passou toda a carreira num mesmo clube, de projeção mediana, e que recusou propostas do Real Madrid para jogar em sua cidade, no time que admirou a vida inteira, ganhando uma infinidade de títulos menos, são lindas, é claro. Poéticas até. Mas vão contra a corrente, são exceção. Principalmente num mundo onde o futebol se tornou um negócio bilionário, regido por dirigentes que compram clubes e jogadores como se fossem acessórios de um brinquedo, inflacionando valores de forma absurda, num doping financeiro que aumenta cada vez mais o abismo entre os cinco ou seis clubes mais ricos do mundo e o resto. Nesse mundo, o que significa ser "mercenário"? Aceitar uma proposta mais valiosa de um concorrente? Ou renovar o contrato, estabelecendo uma cláusula rescisória de 300 milhões de euros e um salário anual de 40 milhões de euros, como fez Messi há cerca de um mês?

Crédito: facebook FC Barcelona

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