O contrassenso de um prêmio individual num esporte tão coletivo


Cristiano Ronaldo ganhou o prêmio da Fifa de melhor jogador do mundo e igualou Messi em número de troféus. Agora cada um tem cinco galardões, o que consolida a disputa entre ambos no topo do futebol nos últimos dez anos. Neymar ficou em terceiro, ainda muito atrás da dupla, esperando que a idade dos rivais chegue para começar o seu reinado. Acontece que o futebol é um esporte coletivo, e premiar apenas um jogador é um tanto quanto injusto e sem sentido.

Cristiano Ronaldo só é Cristiano Ronaldo porque com ele jogam Isco, Bale, Kroos, Modric, Casemiro, Marcelo etc. Assim como Messi só é Messi porque o trabalho de Xavi, Iniesta, Rakitic, Neymar, Suárez, Daniel Alves, Busquets, Piqué, Puyol, David Villa lhe permitiam brilhar lá na frente. A história do futebol está repleta de casos em que um jogador foi extremamente brilhante acompanhado de um time que lhe permitiu que o fosse: Pelé no Santos e na Seleção nas décadas de 60 e 70, Cruyff no Ajax dos anos 70 e na Holanda de 74, Beckenbauer no Bayern e na seleção alemã, Maradona na equipe argentina dos anos 80, Di Stéfano no Real Madrid nos anos 50, Puskas na Hungria, Zidane na França... Nenhum deles jogou sozinho, nem carregou o time nas costas. Pelo contrário. Fizeram parte de equipes legendárias, repletas de talento, que jogavam melhor com o craque e que permitiam que o craque fosse craque.

Um prêmio individual em um esporte tão coletivo como o futebol, portanto, me parece uma grande contradição. E, além de claros objetivos comerciais e de marketing, serve ainda para inflar os egos que os milhões superinflacionados da indústria do futebol criaram. Robinho, por exemplo, sempre deixou muito claro que seu objetivo era ser o melhor jogador do mundo e ganhar o prêmio da Fifa. E a gente sabe muito bem como fluiu o seu jogo coletivo ao longo de sua carreira.

Além disso, se fosse para premiar um único jogador em um time de 11 - ou mais, considerando que os reservas também cumprem papel importante -, faz mais sentido entregar o troféu a um futebolista que carregue o time nas costas, que se destaque notoriamente entre seus companheiros e que talvez não ganhe tantos títulos quanto Ronaldo ou Messi porque a bola não chega tão redonda a seus pés ou porque ele tenha que se sacrificar com funções defensivas muito mais que o português ou o argentino. Totti é um excelente exemplo. Seriam Ronaldo e Messi tão melhores assim do que Totti?

O italiano nunca esteve entre os três finalistas do prêmio da Fifa. Em 25 anos de carreira, ganhou o Campeonato Italiano apenas uma vez, e a Copa da Itália, duas. No entanto, como meio-campista, marcou mais de 300 gols pela Roma, tendo sido, inclusive, o artilheiro do Calcio em 2005/6, com 26 gols. Se Totti tivesse aceitado a proposta do Real Madrid no início dos anos 2000 e jogado ao lado de Zidane, Ronaldo, Roberto Carlos, Figo, Beckham, Guti e Raúl, não poderia o italiano ter sido considerado pela Fifa o melhor jogador do mundo? No entanto, ao invés de se tornar um Galáctico, Totti preferiu continuar jogando ao lado de Panucci, Perrotta, Cassano...

É claro que Ronaldo e Messi continuariam desfilando talento se estivessem em equipes mais fracas, como o próprio português já o fazia quando ainda atuava no Sporting ou continua fazendo na seleção portuguesa. Porém, provavelmente não estariam no centro das atenções como estão há uma década, nem teriam ganhos tantos troféus, individuais ou coletivos. E pode ser que a Fifa, a imprensa, os outros jogadores, os treinadores e até mesmo os torcedores achassem Robben, Agüero, Hazard, Cavani, Dybala, Harry Kane, Griezmann, Coutinho, Aubameyang ou Ibrahimovic melhores que o português ou o argentino. Ou Toni Kroos, Neuer, Sergio Ramos, Thiago Alcântara, Marcelo, Kanté, Buffon... Pois nem só de atacantes e meias vive o futebol.

Entretanto, se a Fifa ou a France Football decidissem premiar o melhor time - que nem sempre é o campeão -, ou jogadores por fundamentos específicos - melhor marcador, melhor roubador de bola, melhor passador, melhor finalizador etc. - a indústria do futebol perderia mídia, glamour e os milhões da rivalidade Ronaldo-Messi.

Crédito: Facebook Fifa Football Awards

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    Apaixonada por futebol desde 1981.

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