O Real Madrid e o futebol agradecem


Outra importante consideração a ser feita sobre a última final da Champions foi respondida quinta-feira à tarde: até onde se pode ir depois de levar seu time ao terceiro título seguido da Liga dos Campeões da Uefa? Para Zidane, não se pode ir além. E, para não viver o declínio de uma das melhores equipes dos últimos anos, o treinador do Real Madrid pediu demissão.

Em dois anos e meio foram 3 títulos do campeonato mais desejado do mundo – especialmente pelo Real Madrid –, uma Liga, dois Mundiais de Clubes, duas Supercopas da Uefa e duas Supercopas da Espanha. Um aproveitamento que, proporcionalmente, só não é melhor que o de Guardiola no Barcelona, mas com o detalhe de que Zizou levou três Champions (seguidas, um feito inédito) em duas temporadas e meia – além de outra como auxiliar de Carlo Ancelotti –, enquanto Pep levou duas em quatro anos. O francês, porém, não tem na mídia e no imaginário do torcedor o reconhecimento do catalão quando se trata de seu talento como técnico. Uma injustiça, pois eu não vejo o Barça de 2009 a 2011 tão longe deste Real. E o que Guardiola fez foi basicamente reaplicar os conceitos que Cruyff ensinou ao clube por anos e pareciam perdidos e reposicionar Messi, transformando o Pulga no craque que admiramos tanto.

A verdade é que Zidane é bem menos midiático e até carismático que Guardiola. Apesar da cabeça quente como jogador, é tímido, fala baixo e suas coletivas não são nenhum espetáculo. Em campo, seja nos treinamentos ou nas partidas, não demonstra buscar nenhuma revolução, mas sabe ler o jogo como poucos. E o estilo que Zidane demonstrou em sua época à frente do Real certamente não se encaixaria em qualquer time: ofensivo até a medula – ao contrário de Mourinho, que foi contratado pelo Real justamente para fazer frente ao Barcelona de Pep, mas optou por um estilo retranqueiro e agressivo, que desagradou imprensa, torcida e até jogadores merengues.

O maior talento de Zidane como treinador foi demonstrado como gestor de elenco. Em todos os sentidos. Perante a diretoria e o presidente Florentino Pérez, impondo um “basta” (temporário?) à política de pelo menos uma contratação cara e midiática (e muitas vezes desnecessária) por verão. No vestiário, gerenciando egos e insatisfações de um elenco recheado de astros que poderia ser titulares em qualquer equipe do mundo e dando injeções de motivação a um time que parecia já ter chegado ao auge. E à beira do campo, sabendo reposicionar e substituir jogadores sempre que necessário. Alterações que muitas vezes valeram o título, como o reposicionamento de Isco na final contra a Juventus ano passado, e o brilho de Bale no último fim de semana.

Com o melhor elenco entre os clubes da atualidade, Zizou soube encaixar bem todas as peças e tirar o melhor proveito delas. Marcelo é o melhor lateral esquerdo do mundo no aspecto ofensivo? Então Casemiro e Kroos seguram a barra atrás. Benzema não está em boa fase? Então Isco joga mais adiantado, com Cristiano mais centralizado. Isco foi anulado pela marcação? Bale entra em campo, com mais sede de jogo do que nunca.

No entanto, não foram todos os egos que se acalmaram sob a direção de Zidane. James Rodríguez e Morata pediram para sair no último verão, e Bale deixou bem claro que não vai mais permanecer no banco. Mas mesmo assim Zidane soube tomar as melhores decisões para a equipe, fazendo dos jovens Asensio e Lucas Vázquez quase titulares, abrindo portas para Theo Hernández, Borja Mayoral e Dani Ceballos e preparando o futuro de um elenco cujos maiores astros já passaram dos 30 anos.

Pep, por outro lado, não conseguiu desenvolver nenhum jovem de La Masia além de Busquets e Thiago Alcântara – Bojan, Bartra, Deulofeu, Sergi Roberto, Cuenca, Muniesa, Montoya, Cristian Tello e Oriol Romeu nunca corresponderam à expectativa inicial e até mesmo Pedro se tornou apenas um jogador regular. E, ainda por cima, cometeu erros cruciais em partidas decisivas, muitas vezes por causa de alguma tentativa de inovação no momento errado, como apostar Cristian Tello como titular num clássico decisivo contra o Real na reta final da Liga em 2012, deixar Thomas Müller no banco na semifinal contra o Atlético e escalar um meio de campo totalmente ofensivo quando comandava o Bayern contra o Real em 2014, custando ao time bávaro a goleada de 4 a 0 sofrida na Allianz Arena. Não que Guardiola não seja um excelente treinador, mas Zidane não está muito longe – atrás ou à frente.

O único porém no trabalho de Zidane como técnico até o momento diz respeito à motivação da equipe após conquistar duas Champions e uma Liga. O Real Madrid começou a última temporada em marcha lenta, foi eliminado da Copa do Rei pelo modesto Leganés em janeiro e nunca chegou a ameaçar o Barcelona no Espanhol. Na Liga dos Campeões, depois de uma fase de grupos sem brilho, as pedreiras do mata-mata tiraram o melhor dos Merengues. Mas Zidane viu que motivar esse time supercampeão em outra temporada seria uma tarefa ainda mais árdua e, para não se desgastar e promover no Real uma mudança capaz de reacender o ânimo do time, decidiu se despedir.

A decisão me parece acertada. Ídolo como jogador e agora como técnico, Zidane segue amado pela torcida do Real e ainda pode voltar em outro momento para, como fez em janeiro de 2016, resgatar a equipe. Como li de um colega nas redes sociais, as definições de “sair por cima” foram atualizadas. Zizou deixa, além de um time extremamente azeitado e com a renovação bem encaminhada, duas incógnitas: quem assume os Merengues? E quais serão os próximos passos do treinador? Sejam quais forem as respostas, a noite do último sábado seguirá por algum tempo como o ápice deste Real e do trabalho do francês à beira das quatro linhas.

Crédito: Ángel Martínez/realmadrid.com, Instagram Zidane e Facebook Real Madrid CF

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